INSOLVÊNCIAS – NÃO É SÓ O VAREJO
Marcel Solimeo
Foi grande a repercussão do pedido de Recuperação Judicial da Casas Bahia

, não apenas pelo porte da insolvência, mas, também, por se tratar de uma empresa muito conhecida e voltada para o consumo popular. Chamou também a atenção por se somar a inúmeras outras empresas de destaque do varejo, o que parecia indicar tratar-se de um ciclo de inadimplência das empresas comerciais, provocado por razões típicas do setor.
Como é muito concorrencial, o varejo brasileiro opera, no geral, com baixas margens de lucro e procura aumentar seu ganho por meio da expansão da rede. Quando ocorre, por qualquer motivo, uma desaceleração da economia — com queda do emprego ou da renda do consumidor, retração do crédito ou, como agora, aumento significativo da inadimplência do consumidor —, as empresas que estavam expandindo o crédito sofrem duplamente: pela retração da venda e pela queda no recebimento.
É evidente que uma política de juros elevados explica muito do ciclo de inadimplência no varejo, mas cada empresa apresenta também razões próprias de gestão, que explicam a situação de insolvência das empresas comerciais. Já assistimos no passado a ciclos de inadimplência do varejo, sem que outros setores apresentassem situação semelhante.
Agora, no entanto, o que parecia ser mais um ciclo próprio do comércio varejista se revela muito mais grave do que parecia inicialmente. Empresas de grande porte de setores distintos — como a Raízen, gigante da produção de açúcar, álcool e combustíveis, com "recuperação extrajudicial" de cerca de 65 bilhões, seguida pela Braskem, da petroquímica, com 56,5 bilhões, e diversas outras de atividades diferentes em "recuperação judicial" — estão criando um passivo de 180 bilhões de reais. Os impactos sobre credores, fornecedores e empregados geram efeitos que se espalham por toda a economia. A exemplo do varejo, cada empresa tem suas próprias razões para a inadimplência, mas, certamente, a manutenção de juros elevados por um longo período contribuiu para essa situação.
Esses dados impressionam, mas não contam toda a história. Mais de 8 milhões de empresas menores foram à falência, estão em recuperação ou insolventes, sem contar o grande número de micro e pequenas empresas que simplesmente fecharam por não conseguirem sobreviver aos juros, à tributação e à burocracia existentes.
Não se pode falar em crise, por enquanto, mas a continuidade da política fiscal em curso, ou a simples perspectiva de que isso possa ocorrer, pode transformar essa situação em recessão com inflação, lembrando o "Dilma Dois". Inversamente, se as expectativas forem de ajuste fiscal, o mercado se antecipa, os resultados favoráveis podem ser sentidos mais rapidamente e a um menor custo social.



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