MAIS DE SEIS DÉCADAS DE ECONOMIA BRASILEIRA
Completei 63 anos como economista da Associação Comercial de São Paulo no dia 11 de setembro, data em que, em 1963, ingressei no Instituto de Economia “Gastão Vidigal”. Infelizmente, não pude comemorar como gostaria, pois me achava, mais uma vez, hospitalizado em consequência de uma embolia pulmonar da qual, graças a Deus, estou curado e em franco período de recuperação.
Nessas mais de seis décadas, nas quais trabalhei com 15 presidentes da ACSP (sem contar os interinos) aos quais servi sempre com lealdade e dedicação, consegui o respeito de todos, o que muito me orgulha. Convivi com centenas de diretores, conselheiros e empresários em geral — e com muitos ainda convivo —, não apenas na ACSP, como nas demais associações e em um grande número de entidades empresariais. Tanto quanto me orgulho dessa convivência com as lideranças, não posso deixar de mencionar a importância de muitas dezenas de companheiros de trabalho. Sempre atuamos em um clima de igualdade e cordialidade, o que permitiu formar um grande grupo de amigos.
De um posto privilegiado de observação que a ACSP me propiciou, procurei colaborar com os empresários para que entendessem as medidas e os acontecimentos econômicos. Também busquei registrar as posições da entidade, e as minhas próprias, em artigos publicados especialmente, mas não só, através do Diário do Comércio. Como o Brasil viveu períodos de crescimento e de muitas crises nesse intervalo, sempre havia assunto para comentar, criticar ou apoiar. Assim, publiquei no DC (primeiro impresso e, depois, eletrônico) mais de 1.450 artigos já catalogados. Isso representa apenas uma parcela do que escrevi, pois não inclui o que foi publicado em outros jornais e revistas. De qualquer forma, o acervo já levantado constitui um repositório bastante importante dos acontecimentos do período, analisados do ponto de vista dos empresários, que são os agentes efetivos do desenvolvimento.
Durante minha trajetória, convivemos com três Constituições. A primeira, de 1946, incorporava o espírito liberal do pós-guerra. A segunda foi outorgada pelo governo militar. A terceira, e atual, foi fruto de uma Assembleia Constituinte em que a ACSP esteve bastante envolvida; além da defesa de seus princípios, a entidade contava com um ex-presidente seu, Guilherme Afif Domingos, como deputado constituinte. Embora o texto aprovado em 1988 seja muito detalhista e dirigista, teve pontos positivos. O principal deles foi a aprovação do artigo 179 — proposta de Afif —, que instituiu o “tratamento diferenciado para as pequenas e médias empresas” e permitiu a criação do SIMPLES, hoje ameaçado pela Reforma Tributária recém-aprovada. Infelizmente, no momento, observa-se um total desrespeito à Constituição por parte daqueles que deveriam ser seus guardiões.
Além disso, o texto constitucional precisa ser modernizado. O poder público deveria propor uma “emenda mãe” para adaptá-lo aos desafios presentes, com base na liberdade em seu sentido amplo — especialmente no campo econômico —, de modo a estimular o empreendedorismo e a igualdade de direitos e oportunidades.Acompanhar a profunda transformação do país no Instituto de Economia da ACSP me deu a oportunidade única de conviver de perto com os empresários, com os quais aprendi e ainda aprendo muito, e de manter contato frequente com o governo. Ao longo desse tempo, vimos passar 13 presidentes da República e cerca de 30 ministros da Fazenda, sem contar os interinos, além de centenas de autoridades de diversos escalões. Isso me permitiu analisar o impacto dos acontecimentos políticos e econômicos, internos e externos, não apenas sob o ângulo macroeconômico, mas principalmente pela ótica das empresas.
Deus me deu a oportunidade de me realizar ao ingressar na ACSP. A razão pela qual permaneço há tanto tempo na entidade, mesmo tendo surgido muitas outras oportunidades ao longo dos anos, é que sempre me identifiquei com os seus princípios e valores, e acredito poder contribuir, mesmo modestamente, na defesa deles. Soma-se a isso o ambiente de profundo respeito que sempre recebi de todos.
Como já estou chegando aos 90 anos (no dia 10 de janeiro próximo), muitos me perguntam se não é hora de parar. Respondo que, enquanto Deus me der saúde, condições e eu me sentir útil, espero continuar. Como já mencionei muitas vezes, me inspiro em um provérbio chinês que diz: “Enquanto meus sonhos forem maiores que minhas lembranças, serei jovem”. Como ainda tenho muitos sonhos — inclusive o de ver o Brasil tomar definitivamente o rumo do desenvolvimento —, continuo jovem e pronto para o trabalho.
.

Acompanhar a pr



Comentários